A relação do Homem com a Ciência
O texto a seguir é uma resenha feita a partir da leitura do artigo "Concepções
de natureza, paradigmas em saúde e racionalidades médicas", escrito em 2014 por Marilene Cabral do
Nascimento e Maria Inês Nogueira.
O artigo tem por objetivo mostrar a evolução da relação entre homem, saúde e
natureza a partir de transformações nas concepções de grupos como médicos,
químicos, físicos e biólogos. Dessa forma, percebe-se que, com o decorrer da
História, diversas correntes de pensamento foram implementadas, aclamadas,
criticadas e ressignificadas.
Até
anos antes do crescimento da cultura grega, as doenças eram vistas como
fenômenos exteriores ao mundo real, portanto extremamente temidas e sem muitas
soluções, relacionando-se aos mitos. Todavia, esse contexto começou a se
transformar com a valorização do pensamento humano vindo a partir dos primeiros
filósofos da Grécia Antiga. Na busca pela origem e entendimento dos fenômenos a
partir da razão, os gregos acabaram fundando escolas e correntes de pensamento
que contribuíram com o avanço da ciência, principalmente da Medicina. Nesse
período, Hipócrates foi um dos principais teóricos, sendo considerado o “pai da
medicina” até hoje.
A
terapêutica médica hipocrática era baseada no conceito de “vix medicatrix naturae” que, segundo o texto, “[...]expressa assim
um poder autorregenerador, onde preservação e manutenção são privilegiadas; a
possibilidade de cura é imanente e entendida como uma recuperação[...]”, ou
seja, a relação do homem com a natureza tinha de ser de respeito e ordem,
mantendo sua harmonia em busca da cura.
Chegando
à Roma Antiga, o texto expõe os pensamentos de Galeno, que mesmo sendo um
seguidor da teoria hipocrática, inferiu novos conceitos e ações à Medicina. Sua
principal proposta era a cura a partir da ingestão de remédios com diversas
origens e substâncias, a fim de agir em diferentes partes do corpo,
proporcionando a melhora. Essa teoria se deu pelo evento de cura, a partir da
substância “theriaka”, de uma vítima
de envenenamento e, além de gerar uma mudança de perspectiva, proporcionou novas
tentativas não só de cura, como também de prevenção de algumas doenças. Fato
interessante é que esses estudos foram fundamentais para o desenvolvimento da
medicina em diversas áreas, por exemplo nas guerras, que eram típicas em Roma.
Com
a queda do Império Romano e a passagem de diversos eventos históricos,
principalmente o início do Feudalismo, a religião ganhou imenso papel no
entendimento da relação homem-natureza. No artigo, esse momento vem como quando
“a natureza se torna palco de enfrentamento entre o bem o mal”, afirmando ser
essa a luta interior do homem cristão. Enquanto na Grécia Antiga o conceito
priorizado era o de “physis” – ser
gerado constantemente –, nessa época a palavra valorizada, de mesma origem, era
“natus” – “o corpo é separado da alma
e somente esta tem relevância para a salvação”. Portanto, o homem rendia sua
alma a Deus e a partir das práticas cristãs purificava seu corpo que vivia à
beira da imperfeição, dos pecados, da vida mundana. Juntamente à essa ideia,
surgiram práticas alquimistas, utilizadas na busca pelo corpo e mente
perfeitos, ou seja, duas correntes andavam juntas buscando a cura de seus
defeitos tanto físicos e mentais quanto espirituais, entretanto distinguindo em
seus valores e condutas.
Em
uma reviravolta radical de pensamento do século XVII para o XVIII, na Idade
Moderna, o antropocentrismo ganhou seu lugar colocando todos os objetos da
natureza como seus, permitindo ao homem aplicar a economia, a educação, a
política e a saúde de forma que sempre o favorecesse, e assim segue até hoje. Em
favor disso, a tecnologia evoluiu a ponto de serem comparados corpo e máquina, por
exemplo, por Descartes. Na medicina isso não foi diferente, mas a partir da
colocação do homem no centro, surgiram duas correntes com abordagens
diferentes, a fim de definir o melhor método de cura baseadas na teoria
hipocrática. Os vitalistas negavam a comparação do funcionamento do corpo com
um funcionamento mecânico; segundo eles, esse respondia a uma força interna que
não podia ser colocada como material. Em contraponto, os mecanicistas afirmavam
ser o corpo uma máquina com comandos involuntários, que conseguia entender a
natureza a partir da racionalidade.
Com
a evolução dos estudos sobre o corpo humano, principalmente da anatomia e da
fisiologia, a Idade Contemporânea veio com sistemática, lógica, métodos e
experiências para comprovar teorias e, a partir daí, diversas áreas do
conhecimento ganharam forças, contribuindo para a maior valorização da ciência.
Essa mudança de pensamento é marcada pelos fenômenos ocorridos, como guerras,
expansão da tecnologia, transformações políticas e econômicas e, sendo
enfatizada no artigo, a evolução das racionalidades médicas. Nesse momento
apareceram conceitos específicos estudados na biologia, na química e na
biomedicina, principalmente (como fisiopatologias, bacteriologia, farmacologia,
citadas no texto). Ou seja, a concepção de mecanicismo do corpo se comprova à
medida que são necessários medicamentos e tratamentos para uma cura funcional,
e isso depende, a princípio, das escolhas humanas.
Entre
as inovações no campo da saúde, a mais revolucionária e tecnológica, sem
dúvidas, foi a vacina. Ela trouxe inúmeros benefícios para a sociedade, entre
eles e principalmente: a prevenção. Porém, como sempre ocorreu na História, a
população ficou com certo receio em relação à aplicação e funcionalidade desses
métodos, um dos maiores exemplos é a Revolta da Vacina, no Brasil, no início do
século XX, quando a população não entendia essa prevenção, portanto não
aceitava.
Mesmo
com essas inovações, essas novas práticas médicas sofreram diversos tipos de
críticas. A principal apareceu para contestar a situação do meio ambiente
enquanto o homem o utilizava em larga escala e sem pensar nos problemas; a
degradação da natureza, a escassez de alguns elementos naturais, os diversos
tipos de poluição, entre outros fatores, foram questionados. A medicina, nesse
caso, encontrou-se no problema do descarte de seus resíduos, que levou anos
para possuir procedimentos corretos e, mesmo assim, hoje, ainda afeta a
natureza.
Com essas contestações,
fortaleceu-se um movimento de contracultura, em que foram implementadas conferências,
reuniões e discussões acerca dos impactos que as atividades traziam por causa
do individualismo do homem. Entre elas, a Eco 92 e a VIII Conferência Nacional
de Saúde, em 1986, foram as principais. Na mesma época, o Sistema Único de
Saúde foi implementado no Brasil, contribuindo para o acesso às diferentes
partes da população à saúde.
Esses fatos contribuíram para
a volta do pensamento vitalista, mostrando que, hoje, a sociedade analisa a
ação do homem para seu próprio benefício, impactando no meio ambiente. Esse
fato, por ocasiões políticas e econômicas, acaba gerando atitudes mais
individualistas que grupais.


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