Desconstruindo Amélia

Sabe-se que as letras da cantora Pitty não são simples junções de palavras, e sim, em grande parte, críticas a diversos padrões sociais. Entre os temas mais abordados em suas músicas-manifestos estão o machismo, o preconceito e a criação de estereótipos, assim ela busca apoiar e motivar grupos de pessoas, desde a autoaceitação individual até a expressão de movimentos revolucionários.
Uma de suas músicas mais antigas, lançada em 2009, e pouco conhecida quando relacionada às outras, é "Desconstruindo Amélia". A letra conta a evolução de uma mulher que "O ensejo a fez tão prendada/ Ela foi educada pra cuidar e servir" para a que "(...) de repente (...) resolve então mudar/ Vira a mesa, assume o jogo" e, ao fim, "Já não quer ser o outro/ Hoje ela é um também". 

O nome Amélia é uma referência à música "Ai! que saudade da Amélia", lançada em 1942, composta por Mário Lagos e Ataulfo Alves. Nela é criada a imagem de uma mulher totalmente submissa, tendo ganhado até mesmo significado no Dicionário Aurélio, como "mulher que aceita toda sorte de privações e/ou vexames sem reclamar, por amor a seu homem", e hoje, na internet, ainda definida como "mulher amorosa, passiva e serviçal".

O início da letra contém uma descrição de tarefas realizadas pela mulher, como cuidar do filho e organizar coisas ao mesmo tempo, mostrando que ela realiza o que a foi ensinado. Ela "Disfarça e segue em frente/ Todo dia até cansar", até que então cansa e decide tomar o controle de sua vida. Pitty até canta o verso "Faz questão de se cuidar" batendo de frente com a canção de Mário e Ataulfo, que diz "Amélia não tinha a menor vaidade".

Em certo trecho, Pitty canta "Hoje aos 30 é melhor que aos 18/ Nem Balzac poderia prever" trazendo um combate à ideia de um grande autor francês do século XIX, Honoré de Balzac. Em seu livro "A mulher de 30 anos" ele descreve a impressão da época de que as mulheres com 30 anos já eram velhas demais, portanto "ineficazes".

Por fim, repetindo no refrão a frase "Já não quer ser o outro/ Hoje ela é um também" Pitty faz referência a um conceito exposto por Simone de Beauvoir, grande representante feminista, em seu livro "O Segundo Sexo". Ela expressa que a mulher costuma ocupar a posição do Outro ao lado do homem, ou seja, ela não é definida como um ser humano completo e universal, mas como parte ou reflexo do que é o homem primeiro.

"Já é tarde, tudo está certo
Cada coisa posta em seu lugar
Filho dorme, ela arruma o uniforme
Tudo pronto pra quando despertar

O ensejo a fez tão prendada
Ela foi educada pra cuidar e servir
De costume, esquecia-se dela
Sempre a última a sair

Disfarça e segue em frente
Todo dia até cansar (Uhu!)
E eis que de repente ela resolve então mudar
Vira a mesa, assume o jogo
Faz questão de se cuidar (Uhu!)
Nem serva, nem objeto
Já não quer ser o outro
Hoje ela é um também

A despeito de tanto mestrado
Ganha menos que o namorado
E não entende porque
Tem talento de equilibrista
Ela é muita, se você quer saber

Hoje aos 30 é melhor que aos 18
Nem Balzac poderia prever
Depois do lar, do trabalho e dos filhos
Ainda vai pra night ferver

Disfarça e segue em frente
Todo dia até cansar (Uhu!)
E eis que de repente ela resolve então mudar
Vira a mesa, assume o jogo
Faz questão de se cuidar (Uhu!)
Nem serva, nem objeto
Já não quer ser o outro
Hoje ela é um também"
(...)
Pitty - Desconstruindo Amélia: https://www.youtube.com/watch?v=ygcrcRgVxMI



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